HÁ PROBLEMAS NA FAMÍLIA LE PEN e não são apenas as quezílias habituais entre um pai resmungão e uma filha teimosa. Marine Le Pen, dirigente da Frente Nacional de extrema-direita radical em França, expulsou o seu pai, Jean-Marie, do partido que fundou em 1972.
Tudo indica que o político sem reservas de 82 anos se tornou um embaraço depois de desvalorizar as câmaras de gás nazis como apenas um «pormenor» da história.
A trivialização casual ou a negação frontal do Holocausto e as teorias de conspiração antissemitas já foram comuns (embora em privado) na extrema-direita europeia. Mas isso era quando estes partidos estavam nas franjas da política.
Hoje, os partidos populistas estão a alimentar-se de um veio profundo de descontentamento pelas políticas estabelecidas – sobre a austeridade, desemprego jovem e imigração pouco controlada – e posicionam-se para entrar na política corrente.
«Se deixamos de ser o demónio, se “desintoxicamos”, tornamo-nos uma variedade vulgar de direita», resmungou Jean-Marie Le Pen depois de ser vilipendiado pela sua filha de 47 anos. Mas é precisamente isso que Marine pretende. Tal como uma dúzia de outros antigos grupos extremistas, quer arrumar a casa, lavar a história questionável do partido e preparar-se para governar.
Marine Le Pen é favorita para atingir a segunda volta das eleições presidenciais em França em 2017. E não é a única em alta. O líder do Partido dos Finlandeses, Timo Soini, tornou-se vice-primeiro-ministro e dos Negócios Estrangeiros, depois de o seu partido ter ganho quase 18% dos votos.
O Partido Popular da Dinamarca, anti-imigração, saiu das eleições deste ano como o segundo maior. Nada acontece politicamente no país sem o seu consentimento.
Por todo o continente, desde o Partido da Independência do Reino Unido (Ukip) ao recentemente eleito presidente nacionalista da Polónia, Andrzej Duda, ao Partido da Independência, nacionalista radical, na Grécia, as políticas populistas alimentam o debate.
SERÁ ESTE IMPULSO POLÍTICO uma ameaça para a democracia como reclamam muitos dos partidos estabelecidos? Ou estará a insuflar-lhe nova vida, removendo tabus e desafiando uma elite complacente?
«Antigamente», diz um conselheiro do Ukip, «votar num partido de extrema-direita era visto – dependendo do país em que vivêssemos – como perigoso, pobre, algo para fazer em segredo e, acima de tudo, um voto desperdiçado. Mas agora já não é um mero voto de protesto. Podemos estar a trazer alguém para o poder, ou perto dele.»
O papá Le Pen pode ter sido banido politicamente, mas o facto é que eleitores descontentes ecoam as suas opiniões sobre imigração e emprego por todo o espetro político em toda a União Europeia: «Quando há uma família imigrante no nosso prédio, não há problema», diz. «Mas quando há três, quatro, cinco, tornamo-nos uma minoria no nosso próprio país.»
EM DRESDEN, ESTE ANO, assisti a um comício do Pegida, o movimento de protesto alemão que faz campanha contra o que diz ser uma excessiva influência do islão no país. A retórica dos oradores era a mesma: «O barco está cheio!» E no meio da multidão, composta sobretudo por homens brancos de meia-idade, alguns skinheads pontuavam os discursos com gritos de «A Alemanha para os Alemães!»
Matthew Goodwin, o cientista político que tem seguido mais de perto a ascensão do Ukip no Reino Unido, diz que os eleitores do partido são «velhos, homens, da classe trabalhadora e com menos escolaridade». Isso é o perfil de praticamente todos os grupos de extrema-direita na Europa.
Nas eleições para o Parlamento Europeu, em maio de 2014, cerca de um terço dos eleitores optou por partidos que se opõem a uma maior integração política da União Europeia.
«Poderia quase chamar-se o Parlamento Antieuropeu», diz Nigel Farage, líder do Ukip. Representam não apenas o grande ceticismo acerca da UE, mas também medos pela erosão da soberania nacional e uma forte rejeição da ideia de multiculturalismo.
Para muitos eleitores do norte da Europa, foi um protesto contra o que veem como um falhanço de Bruxelas em liderar na crise da zona euro desencadeada pelas enormes dívidas da Grécia.
Europeus do centro e de leste votaram a favor de ultranacionalistas, porque se sentiram abandonados e a lidar sozinhos com uma ameaçadora Rússia. E os europeus do sul ficaram aborrecidos pela falta de solidariedade enquanto lidavam com um elevado desemprego jovem e um afluxo migratório do Médio Oriente e do Norte de África.
Estas frustrações refletiram-se nas eleições europeias. E voto após voto, os populistas recolhem eleitores. Na
Finlândia, juntaram-se ao governo. Em Espanha, candidatos apoiados pelo grupo populista de esquerda Podemos tornaram-se autarcas de Madrid e de Barcelona.
No Reino Unido, o Ukip garantiu 3,9 milhões de votos, embora não tenha conseguido ganhar mais que um lugar no parlamento nacional, isso deveu-se sobretudo ao sistema eleitoral britânico de ciclos uninominais. Na Dinamarca, o Partido Popular anti-imigração está numa posição poderosa, apoiando um governo minoritário na base de votação a votação.
Cada país europeu tem as suas próprias ansiedades, mas os populistas de extrema-direita falam todos uma linguagem semelhante: a UE já não consegue proteger os seus cidadãos, os partidos centristas tradicionais não conseguem oferecer um futuro coerente ou próspero aos jovens e o mundo está a afrontar todos.
«Era suposto a globalização abrir as economias e as mentes», diz Denis MacShane, antigo ministro da Europa no Reino Unido. «Em vez disso, parece a muitos estar a baixar os salários, com mão-de-obra imigrante pronta a aceitar trabalhos por menos que os valores atuais.» Em resultado disso, diz, os eleitores são atraídos para partidos que querem fechar as fronteiras nacionais, ou pelo menos limitar seriamente o acesso aos mercados de trabalho e aos sistemas de segurança social.»
«Há um jogo de empurra a decorrer», diz MacShane. «A Itália está assoberbada pela inundação de refugiados e imigrantes, por isso deixa-os passar silenciosamente pelas suas fronteiras, teoricamente abertas para França e Áustria. Ali são detidos e enviados de volta para um vazio. Ou são autorizados a continuar, na esperança de que acabem na Inglaterra ou na Alemanha.»
É esta sensação de vulnerabilidade que levou a Finlândia, outrora um membro entusiástico, se bem que de cabeça fria, da União Europeia, a reavivar uma tradição populista. Outrora a Finlândia abraçou o euro. A UE trouxe a Finlândia, com a sua longa fronteira com a Rússia, para o centro político da Europa.
No entanto, à medida que o acordo Schengen de abertura de fronteiras é posto à prova por todo o continente, também o medo da cultura finlandesa de ser dominada aumentou. De repente, o euro parece vir com um preço elevado. Em vez de abrir para a prosperidade, representa o peso de salvar europeus do sul que não foram tão disciplinados nas suas contas como os finlandeses.
Os pobres que trabalham são os mais desiludidos, e o Partido dos Finlandeses de Timo Soini tornou-se o seu lar político. Soini alargou a base de apoio do partido para incluir a classe média suburbana, apresentando o seu partido como aquele que luta contra a corrup-ção política e os negócios dissimuladosda elite. Mas também ele pensa que o seu populismo é liderar «o povo esquecido», alienado pelo ritmo das mudançasglobais.
Esse costumava ser o papel do centro-esquerda social-democrata da Europa. Agora, populismos por todo o lado usam essa capa. No Reino Unido foi o Ukip, e não o Partido Trabalhista de esquerda, que percebeu a profunda frustração dos ingleses nas cidades costeiras e explorou a oportunidade política.
Margate, a sudeste de Londres, costumava ser um destino de beira-mar popular para quem morava na capital. Mas pacotes de férias baratos para Espanha e outros lugares acabaram com isso. Os elegantes edifícios oitocentistas, que costumavam ser rentáveis alojamentos de cama e pequeno--almoço para veraneantes, foram votados ao abandono. Foram reavivados para alojar candidatos a asilo e refugiados dos pontos problemáticos do mundo.
Agora os habitantes locais culpam esta presença estrangeira pelo declínio da sua cidade, pela incidência de crime e pela desvalorização das propriedades – e procuram políticos populistas, dispostos a falar contra os estrangeiros.
«Eles não limpam o lixo que fazem, não são ingleses», diz Mark, um habitante local, que trabalha por conta própria a cuidar de árvores. Ele culpa sobretudo os romenos, os búlgaros e os albaneses do Kosovo.
«Eles expulsam os ingleses da habitação social. Tornam difícil termos consultas no médico. Pensa que o meu filho teve hipótese de aceder a aprendiz na construção? Não, enquanto houver romenos com formação dispostos a trabalhar por menos.» Mark votou no Ukip nas eleições de maio de 2015.
PARTIDOS COMO A FRENTE NACIONAL de França combinam políticas económicas de controlo estatal tradicionalmente de esquerda com o seu chauvinismo anti-imigrante de classe operária. É uma fórmula que tem causado muito desgosto entre os partidos de centro-esquerda.
Claudia Chwalisz, do «think tank» Policy Network, faz parte do crescente número de observadores que dizem que os partidos de centro-esquerda não podem demonizar a extrema-direita.
«Os centristas devem combater os elementos reacionários do populismo, mas também escutar os avisos de legítimo descontentamento e revisitar a sua própria abordagem à representatividade e à governação, garantindo a qualidade das vozes políticas», diz. «Há algum mérito em reconhecer que o aumento de apoio do Ukip pode ser uma correção para a democracia.»
Mas também há desafios para os sociais-democratas vindos do populismo de esquerda. Die Linke, na Alemanha, tem atacado o moderado SPD, apresentando-se como o único partido antiausteridade.
Na Grécia, o Syriza, com raízes no comunismo e no ativismo estudantil, chegou ao poder com os Independentes de direita prometendo libertar os gregos da austeridade. O PIB do país tinha já caído 25% em quatro anos devido aos cortes forçados no orçamento.
Como outros membros da Eurozona do norte da Europa – holandeses, austríacos, finlandeses –, a Alemanha recusava perdoar a dívida grega, porque isso iria enfurecer os contribuintes e eleitores em casa. As exigências do governo de esquerda populista na Grécia apenas serviram para granjear apoio aos populistas de extrema-direita nas nações credoras.
Isso é apenas parte da confusão da política europeia enquanto o continente luta para lidar com múltiplos desafios. E isso complica a questão sobre se os partidos populistas são uma bênção ou uma praga para a democracia.
Enquanto fazem a transição de grupos de protesto para elementos fixos no espetro político, a acusação é a de que os líderes populistas querem o poder sem a responsabilidade. Eles sabem que a sua verdadeira força junto do público é como apoiantes ou detratores do rei, mas fora da corte.
Quando tentam partilhar o poder, submetendo-se à disciplina dos ministérios e calam as suas críticas, perdem apoio.
Por isso, o Partido Popular Dinamarquês concentra-se em obter concessões de um governo que é dependente do seu apoio parlamentar. Tentou algo semelhante entre 2001 e 2011, e a Dinamarca acabou por ficar com uma das mais duras leis de imigração da Europa. Esta governação dissimulada corrói o processo democrático.
Outra preocupação é a admiração expressa de muitos populistas da Europa Ocidental por Vladimir Putin, o líder do Kremlin. A Rússia tem emprestado dinheiro à Frente Nacional da senhora Le Pen. E a senhora Le Pen foi rápida a reconhecer a anexação da Crimeia. O senhor Putin, determinado a dividir o Ocidente, sabe como jogar este jogo.
Há uma corrente antiamericana bem como anti-Bruxelas a percorrer tanto os partidos populistas de esquerda como os de direita. Não admira que Alexis Tsipras fosse um convidado tão bem-vindo na Rússia. Se o senhor Putin oferece ajuda substancial à Grécia, isso é tanto um ato de malícia quanto de bondade.
Estes são motivos de preocupação porque levantam questões importantes sobre a lealdade dos líderes populistas em relação aos seus estados. São frequentemente figuras carismáticas, dadas ao risco, que dizem sentir o pulso dos seus povos – mas isso é diferente de ser estadista ou de ter uma liderança estratégica sábia.
SERIA UM ERRO LEVANTAR medos de um regresso aos anos 30 do século XX, a idade dos demagogos. Os limites legais e constitucionais são suficientemente robustos na maior parte dos paí-ses para evitarem que políticos que falam livremente se lancem em discursos racistas. Jean-Marie Le Pen, afastado pela sua filha, simplesmente não é nenhum Hitler. O populismo é a política das emoções, e é portanto visto com suspeição pelos racionalistas da política tradicional. Os populistas polarizam. Simplificam em excesso. É, no entanto, precisamente a falta de paixão que afastou tantos eleitores do processo político e das urnas de voto. Agora os eleitores estão de volta, discutindo política nos bares e em casa, fazendo perguntas incómodas. Uma democracia saudável não deve ter medo disso.