São 5.30 da manhã. Na companhia da fotógrafa Ineke Key, deixo o porto de Puno na Solitera, um barquito a motor que me leva à ilha flutuante de Santa Maria. O Sol emerge das águas como uma grande bola alaranjada. Dali a minutos, vai já alto no céu, difundindo uma luz crua e fria. Apesar dos casacos forrados, das luvas e meias de pêlo de lama, que comprámos no mercado de Puno, não paramos de bater os dentes. Estamos em Julho, mas neste planalto dos Andes, na fronteira entre a Bolívia e o Peru, faz tanto frio que a Solitera está coberta por uma fina película de gelo. As temperaturas aqui podem descer a -25°C. Seguimos os estreitos canais que serpenteiam nas águas pantanosas de onde emergem os caniçais dourados de juncos totora. A água é tão límpida que, nalguns sítios, consegue ver-se o fundo. Patos e gansos pastam entre os altos caniços que graciosos corvos-marinhos sobrevoam em voos rasantes. O lago parece-se mais com o delta de um rio, mas os picos nevados que à nossa volta se erguem a mais de 4400 metros chamam-nos à realidade: estamos a mais de 3600 m acima do nível do mar, no segundo lago navegável mais alto do Mundo, o Titicaca. Ao fim de uma hora, aproximamo-nos da ilha, quando ouvimos tiros de armas de fogo. Alcides Huanca Mendoza, o nosso guia-intérprete, tranquiliza-nos: «São índios Uros à caça.» Então, no meio de um denso caniçal, avistamos um homem baixo dentro de uma barca de juncos que está, de facto, a atirar aos patos. Debaixo de um chapéu de coco, tem um gorro de cores vivas com longas protecções para as orelhas que lhe pendem de ambos os lados da cara. «Bom dia, Felix!», cumprimenta-o Alcides. Apontando para um cesto cheio de galinhas-d’água, patos e gaivotas, acrescenta: «Já ganhaste o almoço para toda a família!» Felix ri-se, revelando uma fiada de dentes surpreendentemente brancos. Quando Alcides lhe conta que estamos a caminho da sua ilha, o índio leva-nos a conhecer a sua família. Pousamos cuidadosamente as nossas botas de montanha no leito de juncos da ilha. Esta balança tanto sob os nossos pés, que parece que estamos sobre um colchão de água. À porta de uma das oito cabanas de junco de Santa Maria, uma mulher jovem com grandes tranças negras acende o fogo com pedaços de carvão. «A minha mulher, Francisca», apresenta Felix com orgulho. Ela fica deliciada com o nosso presente: um cesto com maçãs, bananas e pão. O pão e a fruta fresca são luxos que os Uros só raramente podem permitir-se. Sob várias camadas de saias garridas sobrepostas, Francisca está de pernas e pés nus. Faz-me sinal para que me sente a seu lado, no chão de juncos. Como é que é possível! O chão da sua ilha de caniço está coberto por uma fina camada de gelo, mas os Uros andam todos de pé descalço. Isto faz-me perceber até que ponto o aquecimento central, o calçado e as roupas quentes tornaram os nossos corpos preguiçosos.

Os cinco filhos de Felix e Francisca acordaram e têm fome. Para o pequeno-almoço, nada de cereais, pão e queijo; a ementa consiste em galinha-d’água, pato e gaivota. Francisca dá-lhes duas patas de palmípedes, de pele vermelha e amarela. Não acredito nos meus olhos: estão cruas! As crianças comem-nas como se fossem aperitivos. Francisca oferece-me uma, mas recuso educadamente, com medo de apanhar algum parasita. Nos tectos das cabanas há aves aquáticas acabadas de estripar a secar ao sol. «Apanhei-as esta manhã», diz Felix. «Quando secarem, aguentam-se durante meses. Várias embarcações com 3 a 3,5 m de comprido flutuam em redor da ilha, ou estão recolhidas sobre a plataforma de juncos. Ao aproximar-me para admirar uma mais de perto, vejo que é feita de feixes de juncos. Não admira: a esta altitude, a madeira é rara. Na verdade, a embarcação é uma espécie de jangada, pois não tem quilha. Em finais dos anos 60, o antropólogo e aventureiro norueguês Thor Heyerdahl contribuiu para celebrizar os artesãos do lago Titicaca. Para provar que os povos das duas margens do Atlântico podiam ter tido contactos mais cedo do que se pensava, mandou construir em África um barco de papiro, o Rá. Partindo da costa marroquina, esperava atravessar o oceano até aos Barbados, mas o Rá afundou-se antes de chegar ao destino. Heyerdahl voltou-se então para os Uros, que sabia construirem os seus barcos segundo os mesmos métodos que os antigos Egípcios e Fenícios. Encomendou-lhes o Rá II, e esta embarcação de junco atravessou o Atlântico sem problemas. Temos sorte: os Uros oferecem-nos a possibilidade de assistir à construção de um dos seus barcos. Armados de uma navalha bem afiada, Carlos Lujano Charca, de 33 anos, e o seu pai, Aurélio Lujano Coila, de 58, cortam caniços e juntam-nos em feixes. São necessários cinco feixes para fazer um barco: um para o fundo, dois para os flancos, um para a proa e outro para a popa. Como é que estes barcos de juncos podem navegar? O jovem índio faz-nos uma demonstração da arte de bem unir os feixes de caniços, com uma corda de junco entrançado. «Um feixe bem compacto flutua melhor e leva mais tempo a apodrecer», explica ele. Quando, dias mais tarde, regressamos à ilha de Santa Maria, o barco começa já a ganhar forma. São precisas pelo menos duas semanas para construir um bom barco. Aurélio bate vigorosamente nos feixes de juncos com uma moca de raiz de totora, para os compactar o mais possível. Depois, com um gesto rápido, dá mais um apertão nas cordas. Entretanto, Carlos deitou-se de costas sob o barco em construção, e com os pés, empurra os feixes para cima, para elevar a popa e a proa. Desta forma, a navegação é facilitada, mas também a tarefa de içá-los para as ilhas de juncos. Os Uros constroem diversos tipos de embarcação, adaptadas à pesca ou à caça, e, desde há pouco tempo, fabricam também canoas de juncos para os turistas. Um barco de totora dura em média uns dez meses. Carlos mostra-nos uma grossa pilha de juncos achatados. «É o nosso barco do ano passado. Ao fim de alguns meses, o junco começa a apodrecer lentamente. Também temos o mesmo problema com as nossas ilhas. De tempos a tempos, temos que voltar a cobrir o chão com uma nova camada de juncos.»

Há várias lendas para explicar a origem dos Uros. Segundo a tradição, eles seriam um dos primeiros povos a habitar o continente sul-americano. Os linguistas descobriram que a sua língua original, o puquina, não tem nada em comum com as duas outras grandes línguas ameríndias do peru, o quechua e o aimará. Nos séculos XV e XVI, os Incas eram donos e senhores do Peru, da Bolívia e do Equador. Nos territórios conquistados, obrigavam as tribos indígenas a pagar-lhes tributo. Os Aimarás pagavam em cereais, batatas ou pedaços de floresta, mas, segundo a lenda, os Uros eram tão pobres que a única coisa que tinham para dar aos Incas eram pulgas! Com as suas cabeças grandes e corpos entroncados, os Uros eram vistos pelas outras tribos como estúpidos e cidadãos de segunda classe. Foi aliás no século XVII que foram baptizados de «Uros», que na origem significava «sujos e maltrapilhos». Isto explica o porquê de se terem refugiado no lago Titicaca, onde construíram ilhas flutuantes com o único material disponível em abundância: os juncos. Algumas destas jangadas, compostas por feixes de juncos empilhados com uma espessura de uns 75 cm, eram fixadas às raízes dos caniçais agarradas ao fundo do lago, enquanto outras andavam à deriva sobre as águas. Nestas ilhas, com superfícies de 0,5 a 2 hectares, os Uros viviam em autarcia completa, alimentando-se essencialmente da caça e da pesca, mas também das partes comestíveis dos próprios caniços. Hoje não resta praticamente nenhum uro a 100%. Ao longo dos séculos, foram-se miscigenando com os índios aimarás de terra firme, para evitar os casamentos consanguíneos. A antiga língua puquina foi em grande parte substituída pelo aimará, mas a sua técnica única de construção de barcos e o seu modo de vida nas cerca de quarenta ilhas flutuantes subsistiram e estão no centro da sua cultura.

Os Uros sobrevivem em condições difíceis. Felix e Francisca não têm aquecimento nem electricidade. Eles e os filhos dormem todos juntos num único colchão de juncos, cobertos por uma manta espessa. Muitos uros sofrem de reumatismo, artrite e dos parasitas. A sua esperança de vida média é de apenas 48 anos, enquanto no resto do Peru ela é de 67. As condições de higiene deixam muito a desejar. Fazem as suas necessidades no lago Titicaca, de onde também tiram a água para beber. Com uma superfície de 7800 km2, o lago perde todos os anos um pouco de terreno. Nesta região em que chove pouco, a irradiação solar é tão forte que a água se evapora rapidamente. O abaixamento do nível das águas é uma preocupação constante para os Uros, porque as reservas de peixe diminuíram consideravelmente. Algumas partes do lago já não são navegáveis e, nalguns sítios, as ilhas flutuantes começam mesmo a tocar o fundo.

Alberto Fujimori, o presidente peruano, transformou a parte do lago que é habitada pelos Uros em reserva nacional. Felix está satisfeito com essa decisão: «Assim talvez possamos continuar a viver aqui em paz e sossego.» Há cinco anos, os Uros decidiram deslocar várias ilhas flutuantes, entre as quais a de Santa Maria, para o estreito de Puno-Taquile. «Para que possamos ganhar algum dinheirito com os turistas que por aqui passam», comenta Felix. As mulheres bordam tecidos com motivos de peixes, barcos e índios de chapéu de coco. Sentado ao sol diante da sua cabana, Martin, um jovem entroncado de 23 anos, fabrica, tal como os outros homens da ilha, réplicas de barcos de junco para vender aos turistas. Vende-os por três soles, pouco mais que 200 escudos. «A nossa vida tem melhorado com o turismo», diz ele. «Vendemos-lhes roupas e mantas. A nossa família economizou durante cinco anos para comprar um barco a motor. Agora podemos ir a terra todas as semanas para vender peixe e aves, e comprar fruta, batatas e arroz.» Martin mostra-nos a sua canoa, escondida no caniçal, e faz os gestos de remar. Carlos e Aurélio não estão por ali, mas o barco deles ainda não está acabado. Porém, estou cheia de vontade de navegar numa daquelas embarcações. Com um gesto, Martin diz isso a Felix. Ele leva-me até um canto do caniçal onde estão ancorados vários barcos. Hesito. Comparada com os índios, sou grande e pesada. Além disso, tenho as minhas botas de montanha. Felix ajuda-me a entrar para a embarcação que, ao mais pequeno movimento, oscila perigosamente. Decido descalçar-me. Se tiver a infelicidade de cair à água, pelo menos poderei nadar. Remando cautelosamente, saio por fim do canavial para entrar nas águas no lago. A minha pequena embarcação é leve e rápida. Com algum excesso de confiança, afasto-me da ilha de Felix e Francisca. No silêncio infinito, sob um céu azul metálico, rodeada de picos nevados, sinto uma onda de felicidade. Compreendo a razão por que Felix e a sua família preferem a calma e a beleza do lago Titicaca à vida no mundo moderno. Mas os Uros não podem escapar inteiramente a essa vida. Descobriram que os barcos de madeira duram muito mais tempo, são mais rápidos e navegam melhor, porque têm quilha. Mas para a maior parte dos 700 Uros eles são ainda demasiado caros. Ao voltar lentamente à ilha de Santa Maria, pergunto-me se, no fundo do seu coração, Felix não gostaria de um pouco mais de conforto. Decido perguntar-lho. «Não consigo imaginar uma vida melhor em terra», responde ele. «Nunca sairei daqui. No lago Titicaca tenho tudo: ar puro, paz e sossego e comida de borla. Por que é que havia de ir com a minha família viver para uma cidade suja e malcheirosa como Puno? O meu lugar é aqui, nesta ilha de junco, como os meus antepassados.» Chegou a hora das despedidas. Vou voltar ao mundo dos computadores, dos hamburgers e dos carros velozes. À entrada do porto de Puno, atravessamos uma espessa camada de algas, onde boiam latas vazias e garrafas de plástico. O lago Titicaca começa a estar poluído, e isso entristece-me. Só espero que Felix e a sua família possam ainda continuar a viver tranquilamente, por muito tempo, na sua ilha flutuante, longe da civilização moderna.

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