Álcool: a ameaça invisível
Álcool nas empresas: um problema dispendioso
O consumo de álcool no meio laboral acarreta graves custos para a nossa economia.
"Comecei a beber aos 17 anos", recorda Pedro Matos*, de Anadia. "Com um copo na mão, conseguia animar uma festa, dizia umas piadas com graça e tinha sucesso com o sexo oposto." Porém, este militar de 42 anos, casado e pai de uma filha pequena, foi gradualmente precisando de mais álcool. "Tomava toda a espécie de bebidas, desde cerveja a whisky, a qualquer hora do dia", conta. "E bebia igualmente de manhã e à hora do almoço para evitar tremer no trabalho."
Em casa, a violência verbal e os problemas financeiros começaram a provocar instabilidade no casal. Pedro quis abandonar a bebida, mas não conseguiu. Em 1994, quando estava na Marinha, cometeu um erro grave. "Retiraram-me as responsabilidades", refere. Nesse ano, promoveram a sua entrada nos Alcoólicos Anónimos (AA).
Luísa Azevedo*, de 50 anos, trabalhou como secretária de administração numa empresa alemã durante mais de 10 anos. Apesar de só beber fora das horas de serviço, a sua dependência do álcool deixava-a tão intoxicada que várias vezes teve de meter baixa. As repetidas ausências e a falta de rigor com que executava o trabalho levaram a direcção a despedi-la. "Apesar de a minha mente perceber que estava a destruir-me, o meu corpo ansiava por álcool e eu não resistia", conta.
"Comecei a recorrer ao álcool aos 43 anos porque me desinibia a nível profissional", recorda António Gomes*, de 62 anos, ex-director de uma instituição financeira na área de Lisboa. "Ficava com maior poder de comunicação, mais criatividade e uma melhor percepção para analisar os relatórios."
O álcool parecia nunca lhe causar problemas de maior, pelo contrário. Quanto mais alto subia na carreira, mais fácil era combinar o seu hábito da bebida com o trabalho. Tinha um gabinete só para ele, uma secretária que o encobria e almoços de negócios que desculpavam o cheiro a álcool do hálito.
Mas os efeitos da bebida foram-se tornando mais evidentes, e este economista chegou ao ponto de marcar uma hora especial para assinar cheques devido ao tremor das mãos. "A dada altura, já não consegui esconder o meu problema e tive finalmente de admitir que era um alcoólico", acrescenta. "A empresa fez-me uma proposta e entrei para a reforma antecipada."
Casos destes não têm conta em Portugal. Segundo uma estimativa da Organização Internacional do Trabalho (OIT), 70% das pessoas com problemas de consumo de álcool estão inseridas no mercado de trabalho. O alcoolismo é, por conseguinte, um fenómeno empresarial. Nas últimas décadas, o consumo de álcool tem aumentado no nosso país, em especial o das mulheres e dos jovens. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística, em 1970 os Portugueses bebiam 9,9 l de álcool puro per capita; em 1996, esse número subiu para os 11,2 l, colocando o nosso país em segundo lugar, a seguir ao Luxemburgo, no conjunto dos países da União Europeia. Dados recentes indicam que actualmente lideramos a lista.
Uma das causas apontadas para este aumento é a mudança de hábitos. "Antigamente, as pessoas bebiam vinho às refeições, e só consumiam bebidas espirituosas, como o whisky, o gin e a aguardente, em festas e comemorações", diz Amadeu Dias, ex-director-geral do Trabalho e autor do livro Álcool e Drogas em Ambiente Laboral. "Acontecia o mesmo no trabalho. Só se serviam bebidas espirituosas para festejar o aniversário de um empregado. Hoje, este tipo de bebidas é consumido no dia-a-dia como aperitivo ou digestivo, juntamente com o vinho ingerido às refeições." E o resultado está à vista: calcula-se que em Portugal haja quase dois milhões de bebedores excessivos, dos quais 800 000, cerca de 8,5% da população, serão mesmo dependentes.
E o pior é que o problema do alcoolismo encontra-se em todos os sectores profissionais, ao nível das mais diversas funções e atinge todas as classes e faixas etárias. "O alcoolismo é a verdadeira democracia: quando toca, somos todos iguais", diz António Vieira da Rocha, director do CRATO - Centro de Recuperação do Alcoolismo e Toxicodependência, no Porto. "Afecta desde o homem das obras ao professor universitário. Não poupa sexos, idades nem religiões."
Mudança de atitude. Os custos sociais e económicos resultantes deste problema são terríveis. Um trabalho realizado pela OIT e a Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1987 revelou que o consumo de álcool e drogas no meio laboral é responsável por entre 15 e 30% dos acidentes mortais ocorridos no local de trabalho, um absentismo 2 a 3 vezes superior ao dos outros trabalhadores, entre 15 e 40% dos processos disciplinares e uma redução de 25% da capacidade de trabalho dos afectados.
Segundo o psicólogo Paulo Duarte Vitória, autor do estudo "Consumo de Álcool e Drogas Ilegais em Empresas do Distrito de Lisboa", estas consequências são acentuadas pela tendência para, consciente ou inconscientemente, o alcoólatra e os que o rodeiam negarem ou esconderem o problema.
"O absentismo, a redução significativa da produtividade ou um acidente são sinais de alarme que geralmente ocorrem numa fase muito avançada do problema", diz. "Antes, na fase da negação, ocorrem outros tipos de problemas que, sendo menos evidentes para as empresas, provocam custos elevados: atrasos, decisões inadequadas, erros, danificação de material e equipamentos, conflitos, tempo perdido, sobreutilização dos serviços médicos e sociais, perturbação do clima organizacional e promoção de uma imagem negativa da empresa, entre outros."
A OMS calcula que os custos relacionados com o álcool em meio laboral, em termos de absentismo, baixa de produtividade e tratamentos, representam 3% do produto interno bruto dos países. No entanto, até há pouco tempo o alcoolismo no meio laboral era um assunto tabu. Só em Maio de 1999 é que o Governo Português aprovou uma resolução que contempla a criação de uma comissão interministerial para analisar e integrar os múltiplos aspectos associados à luta contra o alcoolismo e a intensificação da colaboração internacional nesta matéria. Assim, o problema do alcoolismo é pela primeira vez assumido em termos políticos, e só agora vão ser procurados planos de acção.
O crescente número de adictos e os altos custos que representam para as empresas trouxeram finalmente alguma tomada de consciência e consequente mudança de atitude. Apesar de ainda haver muita resistência, a receptividade das empresas tem vindo a crescer, embora não se saiba quantas delas têm implementados Programas de Apoio aos Trabalhadores (PAT) com problemas de entrega ao álcool. Enquanto há 10 anos só as empresas de alto risco, nomeadamente as ligadas aos transportes e comunicações, apostavam nestes programas, agora estão a ser aplicados cada vez mais nas grandes companhias do Estado. Quanto às empresas privadas, só uma pequena minoria os aplica.
"A lentidão com que lidamos com este problema prende-se com a nossa cultura de bons bebedores", explica Joaquim Margalho Carrilho, chefe da Unidade de Tratamento Intensivo da Toxicodependência e Alcoolismo da Marinha. "Não concordo com 'leis secas'. Há muitas pessoas que bebem e não são alcoólicas. Pena é que, quando toca à doença, haja uma desculpabilização tradicional na sociedade portuguesa. Uma pessoa que precisa de beber constantemente ainda não é vista como sofrendo de uma doença."
Consumido com moderação, o álcool é considerado um estimulante de alto valor social. Mas como há uma certa incompreensão do alcoolismo enquanto doença, o bebedor patológico é rotulado de ser inferior, com falta de força de vontade e fraca personalidade. E as consequências físicas e psicológicas do seu vício são vistas como um castigo.
Também a nível das empresas, o problema da dependência do álcool ainda não é visto com a devida dimensão. No estudo efectuado por Paulo Duarte Vitória junto de mais de 1800 firmas com mais de 50 trabalhadores, apenas 14% reconhecem que o problema existe com alguma gravidade, e só 2% o avaliam com sendo de muita gravidade. "O nosso país é composto maioritariamente por pequenas empresas sem estruturas para suportarem, só por si, este tipo de investimentos", diz. "Nas grandes empresas, os quadros dos serviços sociais ou de saúde ocupacional não possuem formação nesta área. Quando estão sensibilizados e motivados para intervir, esbarram com o pouco poder de decisão que têm nas empresas e com a ausência de interesse das administrações e dos serviços de recursos humanos."
A inexistência de legislação é outro obstáculo para a implementação dos PAT, porque estes programas deveriam estar sujeitos a uma legislação concertada entre empresários, trabalhadores, sindicatos e Governo para salvaguardar os direitos da entidade patronal e dos trabalhadores. "Não há normas e procedimentos definidos", diz a socióloga Luísa Monteiro. "Existem é situações avulsas, uns fazem análises aos empregados logo nos actos de admissão, outros vão fazendo rastreios, sabe-se lá com que critérios. Os testes toxicológicos para determinar o consumo de álcool e drogas no meio laboral envolvem problemas de ordem moral, ética e jurídica e devem ser encarados como uma parte da solução sistemática em que se incluem a informação, prevenção, tratamento e reabilitação."
Segundo Luísa Monteiro, implementar um PAT é criar uma estrutura que visa o bem-estar biopsicos-social dos trabalhadores. "A demissão deve ser o último recurso", diz. "É fundamental que os empregadores entendam que um programa destes tem um carácter preventivo e não punitivo. Os empregados com problemas de alcoolismo devem receber o mesmo tratamento que os que têm outras enfermidades."
Um bom investimento. É verdade que se trata de um serviço dispendioso, mas, mais que uma obrigação ética, a criação dos PAT é um imperativo financeiro. Façam-se contas. Se 8,5% da nossa população activa têm problemas de alcoolismo, é só pensar nas consequências para as empresas. Não é por acaso que grande parte das empresas americanas mantêm este tipo de programas. A título de exemplo, duas delas, a General Motors e a United Airlines, lucraram com os PAT 37 milhões de dólares/ano e 16,95 dólares por cada dólar gasto no programa, respectivamente. Também a Northrop Corporation, com o mesmo programa, aumentou em 43% a produtividade de cada empregado. "Um empregado depois de recuperado fica eternamente grato à sua empresa pela iniciativa de recuperação", diz Amadeu Dias. "Além disso, não se perde o investimento aplicado no seu recrutamento e formação."
Amadeu Dias aponta ainda outra vantagem para as empresas. "Pense-se nos estragos que podem ser feitos, por exemplo, em profissões que exigem grande concentração, capacidade de reacção e habilidade motora", diz. "Uma falha operacional por parte de um piloto de aviação poderá causar a morte a centenas de pessoas, além de avultados danos materiais; um operário que danifique uma máquina de milhares de contos poderá causar enormes prejuízos a uma fábrica, e um técnico poderá cortar a luz a uma cidade inteira. Por isso, implementar programas de recuperação de funcionários alcoólicos é um bom investimento."
Os programas de álcool das empresas variam nas suas filosofias, métodos e objectivos. Nalguns deles, há um acordo formal entre os trabalhadores e a direcção em alguns objectivos, como políticas disciplinares, orientação dos encarregados na forma de lidar com os alcoólicos, distribuição e consumo de álcool no local de trabalho.
Este último assunto é o mais contestado. Algumas empresas optam pela proibição total de álcool, incluindo a sua venda nas instalações ou uso em celebrações. O não-cumprimento desta regra acarreta medidas disciplinares que vão desde advertências a despedimento com justa causa. Outras permitem que se venda apenas em algumas áreas de trabalho por razões de segurança. E muitas não impõem qualquer tipo de proibição. A Shell Portuguesa tem uma política de "álcool zero" que abrange todos os seus 277 empregados, assim como o pessoal das empresas que para ela trabalham. "É interdito o consumo de bebidas alcoólicas no local de trabalho, incluindo nas cantinas, e fora das instalações quando em serviço", esclarece Maria Amélia Mendes, vice-presidente de Recursos Humanos. "A nossa política de proibição sensibiliza para o problema e previne o agravamento de situações que possam existir ou comecem a aparecer."
A Shell começou a implementar o seu programa há cerca de seis anos. O controle é feito por meio de testes com equipamento adequado de medida, sendo a escolha dos empregados feita aleatoriamente por computador. A frequência dos testes varia de acordo com a sensibilidade das funções, podendo ser semanal. "Até hoje, ainda não foi detectado nenhum caso, mas se vier a ser, oferecemos apoio médico e de reabilitação ao empregado", acrescenta.
Em 1988, a Radio-televisão Portuguesa (RTP), sabendo que existiam alguns casos crónicos a tratar, fez um estudo interno e, confirmadas as suspeitas, decidiu actuar de imediato. Dada a grande quantidade de bebidas espirituosas que eram vendidas, a primeira medida tomada foi proibir a sua venda. Assim, nas cantinas da RTP só se pode beber vinho ou cerveja à hora das refeições. "Proibir é sempre complicado, mas achamos que não é correcto uma empresa vender bebidas de alto teor alcoólico", defende Teresa Rosa, chefe do Departamento de Acção Social da RTP.
Não discriminando os trabalhadores adictos, a televisão do Estado paga quase na totalidade o tratamento dos funcionários e estende o apoio ao cônjuge e filhos. "Muitos funcionários pedem directamente a nossa ajuda financeira e psicológica para a recuperação", acrescenta. "Também podem ser as chefias a alertar o Serviço Social quando notam qualquer tipo de irregularidade ou quebra na prestação do trabalho, ou existe ainda a possibilidade de se detectar alguma anomalia nos exames periódicos obrigatórios, devendo os médicos canalizar os trabalhadores para o Serviço Social."
Qualquer que seja o montante do internamento, o trabalhador suporta apenas o equivalente a 50% do seu vencimento, que pode ser descontado até 20 prestações.
A Marinha, onde não se proíbe a venda de qualquer tipo de bebidas alcoólicas, é um exemplo de sucesso. O Projecto Vencer, similar aos programas de assistência a empregados desenvolvidos na década de 90 pela OMS e a OIT, tem por base a detecção precoce do consumo de drogas e de excesso de consumo de bebidas alcoólicas como meio preventivo da dependência. Em 1999, nos 4893 testes de álcool que fizeram semanalmente, de forma aleatória e a todos os níveis, detectaram 18 indivíduos positivos. Em termos de alcoolismo, a taxa de recuperação de adictos anda à volta dos 84%. A dissuasão começa quando é encontrada uma prova positiva através do rastreio de toxicologia na urina ou teste de álcool. Se o funcionário concordar em tratar-se, é encaminhado para a UTITA, onde é avaliado o seu grau de dependência e lhe são feitos testes psicotécnicos.
Além da desintoxicação, feita no Hospital da Marinha durante cerca de 10 dias, o alcoólatra é sujeito a um regime de internamento de cerca de 28 dias, seguido de acompanhamento ambulatório e participação em reuniões semanais com o pessoal técnico da UTITA. Para evitar uma recaída, é depois integrado num programa de vigilância clínica, sujeito a análises toxicológicas e clínicas, e ajudado quer pela família, quer por grupos de auto-ajuda como os AA. "A filosofia da Marinha é que o indivíduo tem de ser responsabilizado pelos seus actos, rapidamente recuperado e reinserido no seu posto de trabalho", diz João Pedro Alegria, presidente do Grupo Coordenador para o Combate à Droga e ao Alcoolismo da Marinha. "O trabalhador alcoólico tem de sentir que o seu emprego está ameaçado. Por isso é importante que as chefias sejam envolvidas. Devem apreciar as suas qualidades, mas também informá-lo de que, caso mantenha o consumo de álcool, a sua aptidão física e psíquica será avaliada por uma junta médica e a sua carreira poderá ser prejudicada."
O programa tem tido resultados tão bons que empresas como a Associação Industrial Portuguesa (AIP) já enviaram os seus peritos para o estudarem. AIP está a pôr em prática um PAT, chamado Programa Solidariedade, similar ao da Marinha. Para tal, aproveitou as experiências desenvolvidas no quadro das forças armadas, nomeadamente os seus meios e know-how. "No desenvolvimento das acções de sensibilização, contámos com a colaboração dos técnicos da Marinha, tendo-se realizado sessões de informação a 300 trabalhadores da AIP, entre eles gestores, quadros médios, pessoal técnico, administrativo e operários", diz Luísa Monteiro, membro do grupo coordenador do programa. Também os militares podem aprender a lidar com os seus colegas alcoólicos fazendo o curso de operadores de prevenção na própria Marinha. "Por estarem no terreno, são agentes privilegiados para notar súbitas mudanças de comportamento", diz João Pedro Alegria. "O importante é fazer a profilaxia da doença antes de o fenómeno chegar a doença. Não nos interessa aquele que tem uma vez um grama de álcool por litro de sangue, mas sim o que tem todos os dias 0,6 ou 0,7 g."
O comandante Silveira é operador de prevenção na Marinha, função que acumula com a de oficial de segurança da unidade. "O curso faz-nos perceber a importância de se recuperar um indivíduo para a organização e para a sociedade, sobretudo do ponto de vista humano", diz este militar, que conhece bem as repercussões da problemática do alcoolismo por já ter vivido de perto uma situação destas com um familiar chegado.
Todos os casos detectados são levados ao seu conhecimento para elaboração de um relatório técnico de segurança. "Nessa altura, explico-lhes que é uma doença progressiva, que pode levar a situações de instabilidade tanto a nível familiar como profissional", diz. "Em geral, acabam por perceber as consequências e aceitam entrar num programa de tratamento ou de recuperação." No entanto, segundo o comandante Silveira, o ideal seria haver um reconhecimento do problema antes de este ter sido detectado através dos testes. "Todos sabem que a minha porta está sempre aberta para virem falar comigo de forma voluntária, na base de uma conversa confidencial, sem que isso implique a elaboração de um relatório técnico, e que têm ajuda. É só quererem."
Para os 4200 trabalhadores da Carris também não há proibição de álcool. "O nosso método é educação, informação e frontalidade, combinado com tratamento para os que precisam", diz Fernando Bonito da Conceição, médico responsável pelo programa. Foi uma equipa multidisciplinar, composta por psiquiatras, médicos do trabalho, assistentes sociais, psicólogos e antigos alcoólicos, que conseguiu implementar uma campanha antialcoólica e regulamentar o teste de alcoolemia. "Juntámos grupos de trabalhadores para debater o problema, e eles compreenderam que estávamos a defender a segurança da empresa e a saúde deles", diz.
Assim, todos os dias são escolhidos aleatoriamente 18 funcionários entre todo o pessoal da empresa, desde o mecânico ao presidente do conselho de administração, para participar no rastreio. Se alguém é apanhado com mais de 0,5 g/l de álcool no sangue, é impedido de prosseguir o seu serviço, sendo a falta considerada injustificada, e o facto é comunicado ao director clínico. "Quando há queixas ou os casos são detectados, temos uma consulta de psiquiatria e as pessoas são tratadas como doentes", refere Fernando Bonito da Conceição.
No caso de reincidência no espaço de dois anos, o funcionário enfrenta um processo disciplinar. Para situações de alcoolismo crónico, a Carris apoia o tratamento e, após a recuperação, procede à sua reintegração.
Nos restaurantes da Carris, os bares estão abertos todo o dia nos horários habituais de trabalho. "Não podemos saber que bebidas alcoólicas ingerem durante o período das refeições porque a maior parte do nosso pessoal trabalha e come fora da empresa", diz Fernando Bonito da Conceição.
Mas o sucesso da campanha antialcoólica, que sempre contou com a concordância dos sindicatos, foi ter tornado o alcoolismo o inimigo a abater, e não os seus doentes. E o facto é que nesta empresa de alto risco a regulamentação fez diminuir a ingestão do álcool. Antes do programa começar, em 1979, havia um consumo médio de 3,88 l por empregado. Logo ao quinto ano de campanha, em 1985, a fasquia baixou para os 2,93 l, o que correspondeu a uma redução de 24,5%. Por ano, são reabilitados cerca de 20 alcoólicos. Tal como a Carris, também a CP, Transtejo, TAP, Portugal Telecom, Volvo e BP aplicam com sucesso programas de intervenção.
Procure ajuda. As pequenas e médias empresas que não têm meios para implementar um PAT podem recorrer a ajuda externa. Clínicas co-mo as do CRATO e São Fiel, em Castelo Branco, estão aptas a dar-lhes apoio. António Vieira da Rocha, fundador e director do CRATO, é um ex-alcoólico. Mediante a sua própria experiência de tratamento no estrangeiro, ajudou a introduzir em Portugal o Programa de Assistência a Empregados (PAE). Este programa contempla a prevenção primária (informação, sensibilização e formação de supervisores e chefias), a prevenção secundária (tratamento dos doentes) e a prevenção terciária (reinserção socioprofissional do trabalhador tratado). "Já prestámos serviço a mais de trinta empresas em Portugal", diz.
A taxa de sucesso do CRATO é de 65%. Só no último ano, foram recuperadas do álcool entre 15 e 20 pessoas. O CRATO conta com uma equipa que presta assistência médica, de enfermagem, psiquiátrica e de aconselhamento, contando ainda com um director espiritual. Durante o regime de internato, além da desintoxicação física, os doentes são levados a reencontrar a alegria e o prazer de viver através da reestruturação da sua personalidade. O preço do internamento e recuperação é de 465 contos por mês. Depois do tratamento, encorajam os pacientes a aderir ao grupo local dos AA ou dos Narcóticos Anónimos, que os ajudam a não ter recaídas.
Existem também outros centros de reabilitação residenciais seguidores do modelo Minnesota (com duração entre 30 e 90 dias), as comunidades terapêuticas residenciais (entre 6 e 12 meses) e os centros de reabilitação ambulatórios (entre 1 e 3 meses).
As empresas, sendo cada vez mais o local onde as pessoas passam grande tempo útil da sua vida, não podem ignorar o problema do alcoolismo. A promoção para a saúde no meio laboral é uma política inteligente, pois aumenta a rentabilidade e dá à empresa uma imagem de responsabilidade social.
Pedro Matos já não bebe há seis anos. "Sem o apoio da Marinha e a ajuda que recebi em casa e nos AA, teria perdido a minha mulher e o meu trabalho", afirma. "Aprendi da pior maneira que não é vergonha ser-se um alcoólico. Hoje, posso dizer que encontrei de novo a alegria de viver."
Onde procurar ajuda
Existem no País três instituições, pertencentes ao Ministério da Saúde, de prevenção e tratamento do consumo excessivo de bebidas alcoólicas: são os Centros Regionais de Alcoologia de Lisboa (tel.: 21 796 18 07), Coimbra (tel.: 239 79 37 10) e Porto
(tel.: 22 610 22 75).
Em Lisboa, há ainda a Sociedade Antialcoólica Portuguesa (tel.: 21 357 14 83), uma instituição não-oficial, que tem uma consulta de alcoologia gratuita.
Existem também os grupos de auto-ajuda, como os Alcoólicos Anónimos
(AA Lisboa: tel.: 21 716 29 69), que promovem reuniões por todo o País.
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