À vista do Atlântico, rumo à foz do Minho

VIANA DO CASTELO. VILA PRAIA DE ÂNCORA.
Parta de Viana tomando a EN 13 para norte. Os primeiros quilómetros
fazem-se entre a faixa costeira, à esquerda - poupada da construção
anárquica, que, infelizmente, vem sendo nota dominante no nosso
litoral -, verde cordão de leiras agrícolas, e, à direita, o casario,
e, mais além, o monte, que, com o seu colorido, remata harmoniosamente
o todo.
À passagem por Carreço, merecem-nos especial referência o farol de
Montedor e, nas suas imediações, o moinho do Petisco, incluído num
conjunto de moinhos de vento classificados como imóveis de interesse público. A norte do farol, e ainda na freguesia de Carreço, situa-se o
pequeno Forte de Paçô, obra militar do século XVII que fez parte da
linha defensiva da costa entre a foz do Lima e a do Minho. Adiante, surge a freguesia de Afife, refúgio eleito por Pedro Homem de Melo,
preservando ainda feição pitoresca - ensombrada, no entanto,
pelos atentados urbanísticos que se impõem junto à estrada -, ao invés de algumas localidades galegas onde a pesca industrial despoletou um
crescimento desenfreado. Afife já não é póvoa piscatória, vivendo dos
proventos do turismo, a ponto de alguns estrangeiros aí terem fixado residência. A Mariana, no lugar de S. Roque, proporcionar-lhe-à inolvidáveis recordações de apurados gostos e sabores. Amesende-se a
um emblemático robalo com algas ou, para os de mais carnívora
inclinação, a uma pá de porco assada na lenha...
Segue-se essa paleta de mar, rio, veiga e pinhal que é Vila Praia de Âncora, esta, sim, ainda dada às lides da pescaria, embora marcada pelas cicatrizes do progresso...Aqui, as provas da sua antiquíssima
ocupação humana, já estudadas por Martins Sarmento, são claras, de observáveis na anta da Barrosa, monumento megalítico da Idade do
Bronze (no lugar da Barrosa).
MOLEDO. CAMINHA. VIANA DO CASTELO.
Antes de arribarmos a Caminha, depara-se-nos Moledo, a mais
aristocrática praia do Norte. Caminha, amparada pelo rio Minho e pelo Coura, seu afluente, é a mais setentrional vila do litoral português.
Nela, a elegância que a torna admirável determina que o leitor se detenha. A vila cresceu no epicentro de paisagens diversas, montanhas, campos, rio e mar, mas que se casam harmoniosamente, daí decorrendo a simbiose dos modos de vida agrícola e marítima que a definem.
A história de Caminha parece remontar à época romana, como talvez o
denuncie um certo traçado rectilíneo das ruas, paralelas e
perpendiculares em relação a um eixo centralizado. Contudo, a sua elevação a cabeça de condado com Fernando Magno, rei de Leão, em 1064, é já facto documental mente comprovado. E foi realmente na Idade Média que a personalidade da vila se prefigurou, assente na construção naval
e no comércio, estribado na navegação de cabotagem e alimentado pelo
grande centro vizinho que era Santiago de Compostela. O primeiro foral outorga-lho D. Afonso 111 no ano de 1279. A Caminha desses tempos formava um núcleo central de contorno murado, com 4 portas e nada mais
nada menos do que 13 torres, de que apenas restam algumas secções de muralha e os arcos da antiga porta oeste e da torre de menagem(hoje torre do relógio), esta última quase intacta.
A prosperidade mercantil da vila, consequência natural da sua vocação marinheira, manteve-se até ao século XVI, quando Viana, então em
crescendo decisivo, lhe arrebatou o título de porto mais importante da região.
Visitar Caminha representa agradável exercício para os sentidos. Com
efeito, a atmosfera, de Verão ou de Inverno, é de tal maneira única
que o leitor encontrará sempre razões de sobra para voltar. Depois de
bordejar a Avenida Dr. Dantas Carneiro, aliás EN 13, vire à direita,
antes da ponte, tomando a Avenida de Camões. Estacione aí o seu
veículo, sob a ramagem das árvores que ladeiam a margem sul do Coura.
Desça ao velho burgo atravessando o Jardim Bento Coelho, continuando pelo largo com o mesmo nome para entrar na Rua de S. João, que o conduzirá à Praça Conselheiro Silva Torres. No redondel, domina a volumetria quinhentista do chafariz, erigido pelo canteiro João Lopes,
o Velho. No limite da praça, e já na Rua da Corredoura, reluz a Casa dos Pitas, de gosto manuelino, cuja edificação se iniciou na última década de Quatrocentos. No granito da fachada, distinguem-se dois
escudos de armas, as finas janelas e as ameias chanfradas. Voltando para trás e transpondo a praça, verá a moradia nobre ocupada pelos Paços do Concelho. Ao lado, a torre do relógio, a enquadrar uma das
entradas para o que foi o centro urbano medieval.
Continue pela Rua Direita - actual Rua Ricardo Joaquim de Sousa. Esta era a via que polarizava o bulício da velha Caminha. Ao fundo, a
Igreja de Nossa Senhora da Assunção, a matriz, remata com nota monumental o conjunto, impressão reforçada pelo baluarte fronteiro, do
século XVII.
Sentida Caminha, faça-se à estrada rumando a norte pela ponte
rodoviária (IC 1) em direcção a Vila Nova de Cerveira. Acompanha-nos a romântica paisagem das margens do Minho, que se espreguiça, lânguida e verdejante, escorrendo para o rio. Ao passar por Seixas, dê uma vista de olhos ao artesanato de latoaria de cobre, vendido à face da
estrada. Segue-se Lanhelas, famosa pela pirotecnia.
Cerca de 1 km depois de Vila Nova de Cerveira, vire à direita para a
EN 302, que conduz a Candemil e Covas. Este trajecto realiza-se sob
arvoredos que abrigam o asfalto com a sua sombra benfazeja. Pena é que se contém tantos eucaliptos. O rio Coura ouve-se lá em baixo, onde corre, fugidio, com a força que alimentou antigas azenhas, hoje em
ruínas.
A partir de Vilar de Mouros, alcançar-se-á uma vez mais, e pela EN 301, a vila de Caminha, de onde, transitando previamente para o IC 1, se apontará a sul. Ultrapassada Vila Praia de Âncora, tome, à esquerda, a EN 305 para Orbacém. Mesmo antes desta localidade, desvie ao lado direito, em Ponte de Saim, entroncando na EN 302. Por aqui, volte a Viana do Castelo para pernoitar, se quiser.
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